O olhar de uma eslovena sobre o Brasil

Confira a percepção da eslovena Nina Oven sobre a arquitetura e sustentabilidade dos dois países:

 

A diferença entre a arquitetura de um país comparado ao outro muitas vezes é enorme, pois cada um possui uma cultura e educação própria. Quando o assunto é sustentabilidade, a regra é a mesma. Para apresentar um pouco da sua  percepção da arquitetura e sustentabilidade no Brasil, comparando com outro país, convidamos a estudante Nina Oven, da Eslovênia, uma das profissionais participantes da Mostra Container.

 

Com bacharelado em Ciência do Design de Tecidos e Vestuário, e Pós Graduação em Design de Interiores, Nina que nasceu e vivia em Ljubljana, capital da Eslovênia, se mudou para o Brasil com o namorado brasileiro e atualmente mora com ele e seus dois cachorros em Paranavaí (PR).

 

 

Confira a entrevista completa com Nina Oven:

 

Mostra Container: Quais as principais diferenças da arquitetura e sustentabilidade da Eslovênia para o Brasil?

 

Nina Oven: A Eslovênia tem quatro estações bem definidas, onde o verão é quente, o inverno é muito frio com neve, e entre estes períodos temos muita chuva e trovoadas. Sendo assim, as casas são construídas para esse tipo de clima. São levados em conta a inclinação do telhado, a espessura das paredes, um bom isolamento térmico, bem como boas janelas, telhados de qualidade e especialmente um aquecimento satisfatório para manter o espaço agradável. O mais caro de tudo isso é o sistema de calefação das casas, pois sem ele, é praticamente impossível sobreviver ao inverno. Assim, para construir uma residência ou edifício na Eslovênia, o custo é alto pelo tipo de construção que precisa ser feita para resistir ao inverno, ao contrário do Brasil, onde essas tecnologias não são empregadas. A construção sustentável é, portanto, um excelente investimento a longo prazo, onde podemos reduzir o consumo de eletricidade, aquecimento térmico e outros impactos negativos sobre o meio ambiente.

O interesse na construção sustentável na Eslovênia está aumentando devido à consciência da sustentabilidade pelas pessoas. Esta é uma grande diferença entre a Eslovênia e o Brasil. Lá as pessoas estão se conscientizando mais sobre esse novo tipo de construção. Há mais ênfase na qualidade da edificação do que no desperdício de dinheiro com os móveis dentro da casa, e aqui no Brasil, na maioria dos casos, as pessoas tentam fazer as casas o mais barato possível e, consequentemente, com pouco investimento em tecnologias sustentáveis, dando preferência para móveis de luxo, lustres, grandes geladeiras e ar condicionado em todos os cômodos da casa.

 

Mostra Container: Como a população visa diminuir os impactos ambientais nas cidades da Eslovênia?

 

Nina Oven: Primeiramente gostaria de destacar uma pesquisa. A Universidade de Yale (Estados Unidos) divulgou detalhes de seu índice ambiental EPI em que a Eslovênia está em 5° lugar no ranking dos países mais verdes do mundo, e a capital Ljubljana recebeu o título de cidade mais verde da Europa de 2016. Nós aprendemos desde cedo que é necessário economizar energia, por isso, lavamos a roupa nos fins de semana porque era mais barato, sempre apagamos as luzes ao sair do quarto e fechamos as portas da casa durante o inverno para manter a casa aquecida, por exemplo. Meu pai me ensinou desde cedo a nunca jogar lixo no chão, e que a limpeza dentro de casa é tão importante como no bairro ou cidade. Sempre fazemos a reutilização dos produtos, quando possível, antes de jogar no lixo. Então, eu cresci com uma educação de que é preciso respeitar os animais, admirar a natureza e cuidar dela, além de usar bicicleta sempre que possível e deixar o carro em casa. Por isso sempre busco colocar em prática o que aprendi, com o intuito de não prejudicar o meio ambiente.

 

Na minha opinião, tudo começa com a educação dos filhos. Os pais são os nossos modelos. Além disso, os jardins de infância e escolas complementam a formação, fornecendo informações e conhecimento sobre o meio ambiente, algo que ajuda as pessoas a tomarem a decisões certas no futuro. Na Eslovênia, as crianças aprendem o básico de reciclagem, triagem de lixo, o respeito pela natureza e os animais. Eles têm várias excursões onde entram em contato com a natureza e aprendem muito sobre a produção de alimentos, como cuidar de animais ​​e como respeitar a floresta.

 

As pessoas na Eslovênia são muito ligadas à natureza. Nós cuidamos da nossa água, por isso é potável, separamos o lixo, buscamos comprar carros de baixo consumo. Optamos por construções que economizem energia, ou quando já edificadas, procuramos métodos para reduzir a energia, como por exemplo, lâmpadas e aparelhos elétricos com tal finalidade.

A população da Eslovênia também busca comprar os alimentos em feiras de pequenos agricultores, com o objetivo de promover esse tipo de atividade, e divulgar os alimentos orgânicos.

 

 

 

Mostra Container: Quais medidas o governo da Eslovênia já tomou para melhorar a qualidade de vida dos habitantes?

 

Nina Oven: Na Eslovênia, temos o Fundo Nacional de Meio Ambiente que concede incentivos financeiros e empréstimos em condições favoráveis ​​para promover investimentos ambientais (redução de emissões de gases de efeito estufa, a produção de energia a partir de fontes de energia renováveis​​e implementação de medidas de eficiência energética). Os cidadãos são encorajados a optar pela construção sustentável por ser um investimento para a vida. O incentivo financeiro é também para a reconstrução de edifícios existentes e a compra de carros com combustíveis eficientes.

 

Muitas cidades estão investindo na produção de pistas para ciclistas, mais trilhas para caminhada, parques paisagísticos e espaços sociais ao ar livre, e também em melhorias no transporte público. As principais cidades estão construindo reservatórios de lixo ou caixas subterrâneas, que melhoram a imagem da cidade, não emitem odor e resolvem o problema de espaço. O governo tenta demolir a grande maioria das construções ilegais. Além disso, todos os anos, as pessoas se reúnem para limpar seus bairros e florestas próximas.

 

Mostra Container: Na sua opinião, o Brasil ainda está muito atrás da Eslovênia quando o assunto é arquitetura e sustentabilidade?

 

Nina Oven: O país tem um papel muito importante no desenvolvimento da sustentabilidade. É um processo demorado, no qual é necessário tornar as pessoas conscientes por meio de publicidade, programas, ações urbanas e recursos financeiros que ensinem os jovens sobre os princípios de ser verde. Nestes três anos morando no Brasil, aprendi que é difícil falar sobre qualquer assunto em geral no país. Eu vivia no Rio de Janeiro e agora no Paraná, e já percebo uma grande diferença entre as duas cidades. As distinções culturais são grandes, e, consequentemente, o desenvolvimento das cidades e de construção sustentável também. Quando me mudei para o Paraná a história foi completamente diferente. As pessoas têm diferentes atitudes em relação à natureza e as próprias pessoas. Cada estado possui uma classificação diferente na escala sustentável. É importante que todos percebam que para mudar o mundo precisamos fazer isso juntos, e cada um deve contribuir. Nós todos sabemos que a construção sustentável é um pouco mais cara, e que não são todos que tem condições de fazer isso, mas você pode contribuir com pequenas mudanças no estilo de vida ou deconstrução.

 

O que eu notei no Brasil é que as pessoas prezam muito pelo conforto individual, cuidados apenas com a própria família e dentro da própria casa são  importantes, e não importa o que está acontecendo com o meio ambiente, ou vizinhos, por exemplo. Quando você constrói aqui a prioridade é apenas em uma obra rápida e barata, independente de como isso vai afetar o meio ambiente e nós no futuro. Na minha opinião, é necessário começar por nós mesmos pensando qual será o impacto das nossas decisões no futuro, e tentar tomar decisões inteligentes e ensinar nossos filhos o conceito de meio ambiente. Incentivos financeiros e regras mais rigorosas para a construção e compra de automóveis por parte do Estado são ferramentas muito importantes para mudanças futuras.

 

 

Mostra Container: Como conheceu a Mostra Container e por que decidiu participar deste projeto?

 

Nina Oven: Estava procurando por uma oportunidade de emprego, enviei meu currículo para Delta Containers porque sou fascinada pela reutilização de containers na construção inteligente de casas. Eu recebi um convite da Tatiana para participar do projeto Mostra Container, e sem pensar muito eu e meu namorado fomos até Curitiba para conhecer mais sobre o projeto. Decidi na hora em participar da Mostra, pois eu amo o meio ambiente e quero trazer a experiência da minha vida no meu país para o Brasil, meu lar e contagiar todas as pessoas ao meu redor.

 

Na Mostra Container, Nina está fazendo o ambiente ‘Biblioteca’. Saiba mais sobre este projeto em: www.mostracontainer.com.br , pode ainda conhecer mais um pouco sobre essa pessoa tão especial acessando: www.ninaoven.com

 

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